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quarta-feira, 8 de março de 2017

O desafio, de Lêdo Ivo

Foi em algum lugar, foi onde a relva cresce
e o mundo se dispersa e uma fogueira arde.
Foi onde o sol clareia estações desterradas
e um seio nu afronta a vontade da treva.
Onde a sombra ensombrece os dias sepultados
e no verão persiste um cheiro de jasmim
e uma abelha dourada pousa na corola
da majestosa flor que reina no jardim.
Foi onde fervilhava o rumor das charnecas
e as águas de um riacho fulgiam nas pedras
e a manhã respirava a promessa da vida.
Levantou-se da terra uma roxa alvorada
num claro desafio ao sol esbraseado
e à nuvem emudecida que no céu passava.

sexta-feira, 8 de maio de 2015

Soneto do Amor Condenado, de Lêdo Ivo










Soneto do Amor Condenado


Quem ama desama
toda vez que ama
e converte o gelo
em túrgida chama

e converte o rogo
da garganta rouca
em cifra de fogo
inscrita na cama.

Quem ama não ama
toda vez que ama.
O amor sempre fica
na beira da cama:

flama que não queima,
peixe sem escamas.



(Do livro Crepúsculo Civil, de 1990. In Lêdo Ivo: Poesia Completa (1940 – 2004), de 2004, p. 808.

terça-feira, 14 de abril de 2015

Aviso aos descuidados, de Lêdo Ivo


Quando amar, tome cuidado.
Não deixe pingar no lençol
a pequena ilha de esperma
perdida no arquipélago
da noite leitosa que esconde
numa concha a vida eterna.


(Do livro A Noite Misteriosa, de 1982, p. 120.)

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