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quarta-feira, 8 de março de 2017

O relógio..., de Jorge de Lima

Relógio, meu amigo, és a Vida em Segundos...
Consulto-te: um segundo! E quem sabe se agora,
Como eu próprio, a pensar, pensará doutros mundos
Alma que filosofa e investiga e labora?

Há de a morte ceifar somas de moribundos.
O relógio trabalha... E um sorri e outro chora,
Nas cavernas, no mar ou nos antros profundos
Ou no abismo que assombra e que assusta e apavora...

Relógio, meu amigo, és o meu companheiro,
Que aos vencidos, aos réus, aos párias e ao morfético
Tem posturas de algoz e gestos de coveiro...

Relógio, meu amigo, as blasfêmias e a prece,
Tudo encerra o segundo, insólito — sintético:
A volúpia do beijo e a mágoa que enlouquece!



segunda-feira, 20 de julho de 2015

Curiosidades da literatura alagoana – Alfredo de Barros Lima Junior e Jorge de Lima

Numa crônica sobre Jorge de Lima, o advogado e poeta alagoano Alfredo de Barros Lima Junior fez um relato acerca da amizade entre os dois poetas, que foram amigos na mocidade e passaram um longo tempo afastados, voltando depois a terem um breve convivência, já que Jorge havia se estabelecido no Rio de Janeiro, e Lima Junior ainda residia em Maceió. Nessa crônica, Lima Junior conta o momento em que percebeu (e se inquietou!) a mudança de rumos da poesia de Jorge, quando este confirma sua adesão à estética modernista. Segue, abaixo, trecho do relato de Lima Junior.

(Do livro Alguns homens do meu tempo: evocaçōes e reminiscências, de Alfredo de Barros Lima Junior, de 1963, p. 74.)

sexta-feira, 24 de abril de 2015

Canto II, poema I, de Invenção de Orfeu, de Jorge de Lima



















Canto II, poema I, de Invenção de Orfeu


É preciso falar-se das criaturas,
verdadeiras criaturas animadas,
das vivências totais, arbítrio e tudo,
alma, corpo funesto e essa imortal


perpetuidade além, Deus nas alturas
nomes de terra e nomes eternados,
anjos, demônios, sonhos acordados
e as profecias, fúrias, posses, tudo


que um poema pode ter: esse clamor
essa indefinição, esses apelos,
— sonho de rei Nabucodonosor,

que depois de refeito e decifrado
é a condição de bicho: carne, pêlos,
e sangue breve do homem desgraçado.



(Poema I, do Canto II - Subsolo e Supersolo, do livro A Invenção de Orfeu, de 1952. In Jorge de Lima: Poesias Completas, de 1974, José Aguilar Editora, vol. III, p. 74.)

domingo, 12 de abril de 2015

Janaina, de Jorge de Lima

Janaina


Janaina vive no rio,
vive no açude,
vive no mar.
Lembrou-se de vir passear:
nas ôndias passou dendê.
As ôndias se acomodaram.
Cavalo-marinho veio
para ela se amontar.
No cavalo se amontou
galopando descuidada,
acordando os afogados,
dando adeus à maré grande.
Botando nome nos peixes,
ouvindo a fala dos búzios.
No ventre de Janaina
as escamas estão brilhando.
Nos olhos de Janaina,
na cauda de Janaina
tem cem doninhas pulando.
Nos peitos de Janaina
tem dois langanhos babando.
Se Janaina sorri
as ôndias ficam banzeiras.
Se Janaina está triste
o mar começa a espumar,
a pegar gente na praia
pra Janaina afundar.
- Janaina dá licença
que eu me afogue no seu mar?


(Do livro Poemas Negros, de 1947.)

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